"É fundamental diminuir a distância entre o que se diz e o que se faz, de tal maneira que num dado momento a tua fala seja a tua prática."

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

O potal YAHOO Brasil Relata o Drama da enchente mais perto da Realidade

FOTO: Emerson Alcalde


NOTA DO AUTOR DESSE BLOG: Enfim um veículo midiático de grande capilaridade resolvelu relatar a situação de enchente que vem assolando a população de alguns bairros da zona leste paulistana de maneira abrangente e menos demagógica. Na reportagem a seguir o jornalista do canal de internet YAHOO,Juliano Costa, toca fundo em questões ignoradas pela grande mídia. Vale a pena ler para ter uma visão mais próxima do que acontece em regiões como Jardim Romano, Vila Itaim e adjacências.


Falta de planejamento urbano é a razão das enchentes em SP

As enchentes na várzea do Rio Tietê na Zona Leste de São Paulo, que vão completar dois meses no próximo dia 8 de fevereiro, ressuscitaram um debate sobre a ausência do planejamento urbano naquela área.

Por Juliano Costa, Redação Yahoo! Brasil


Comunidades inteiras que ficaram alagadas, como o Jardim Romano, o Jardim Pantanal e a Chácara Três Meninas, foram erguidas próximas às margens do Tietê, impermeabilizando o solo. Algumas já começaram a ser derrubadas, como a Vila Aimoré - os moradores foram reassentados em Conjuntos Habitacionais em cidades vizinhas (bem longe de onde moravam) ou se cadastraram para receber um auxílio-aluguel de R$ 300 por seis meses.
A questão é que muito desses moradores estavam ali já há mais de 30 anos, com a anuência do poder público, já que contavam com luz elétrica, telefone e água encanada - um bairro como outro qualquer, mas numa região pantanosa. A indignação das pessoas vem da falta de planejamento dos governos - do estado e da prefeitura de São Paulo - no reassentamento e do fato de que muitas empresas não serão despejadas como elas, apesar de estarem às margens do rio.
"Vão tirar os pobres e deixar as empresas", resume o líder comunitário Ronaldo Delfino, do Movimento por Urbanização e Legalização do Pantanal (Mulp).
Depois de um mês com bairros inteiros debaixo d'água, a secretaria do Meio Ambiente do Estado de São Paulo criou, em 6 de janeiro, uma resolução que torna mais rigorosos os procedimentos de licenciamento ambiental na área de influência do Rio Tietê. A questão é simples: como uma obra na várzea resulta em impactos ambientais que transcendem os limites dos municípios, cabe ao governo estadual a fiscalização. Por isso, agora o licenciamento nestas áreas tem de passar por órgãos estaduais como a CETESB (Companhia Ambiental do Estado de São Paulo) e o DAEE (Departamento de Águas e Energia Elétrica). A tarefa antes cabia às prefeituras municipais das cidades por onde passará o Parque das Várzeas do Tietê, como Itaquaquecetuba, Mogi das Cruzes, Poá e Suzano.

O plano do governo do estado é "recuperar as várzeas ocupadas irregularmente e preservar as remanescentes a montante da barragem da Penha até a nascente do rio, em Salesópolis". A área, de 75 km de extensão e 90 km², se tornaria o "maior parque linear do mundo", como tem alardeado o Governo. As moradias serão desapropriadas para dar lugar a uma imensa área verde - as árvores retiradas para construção da terceira pista da marginal Tietê vão para lá. Mas as empresas vão ficar.
A delimitação do Parque corresponde a um estudo da secretaria do Meio-Ambiente que criou a chamada Área de Proteção Ambiental (APA). A linha verde que caracteriza a APA inclui as comunidades pobres, mas deixa de fora as empresas. Num mundo ideal, todos teriam de sair dali. Mas...
"Esse problema já dura mais de 30 anos e vem passando de um governo para o outro. Já passou da hora de tirar aquele pessoal de lá. Se estão numa área de proteção ambiental, numa váreza de rio, é óbvio que a água vai entrar em casa - e nas fábricas também. O loteamento impermeabilizou as várzeas e gerou esse problema, com a leniência dos governos", diz Miron Rodrigues da Cunha, membro da diretoria executiva do Conselho Gestor da APA da Várzea do Rio Tietê. "Construíram até um CEU (Centro de Educação Unificada) numa área próxima ao Rio. Fizeram sem consultar o Conselho Gestor da APA. E agora como fica? Deixa a escola lá? Ela está alagada..."
O CEU é herança da administração de Marta Suplicy (PT) na prefeitura. A mão do governo em local errado, porém, começou a ser vista com o governador Mário Covas (PSDB). Um imenso Conjunto Habitacional da CDHU (Companhia de Desenvolvimento Habitacional e Urbano do Estado de São Paulo) foi inaugurado em 1998 às margens da rodovia Ayrton Senna - no caminho para o Aeroporto Internacional de Guarulhos. Isso tudo deixa a população ressabiada - como um complexo de prédios pode ficar ali e uma centena de barracos precisa sair?

A secretaria do Meio-Ambiente garante que a fiscalização será mais rigorosa. A Bauducco, situada em Guarulhos, foi a primeira a ser enquadrada. A empresa foi erguida num aterro às margens do Tietê. Durante a fiscalização também se constatou o desaparecimento de um córrego próximo ao terreno, de acordo com os mapas hídricos do DAEE. O arquiteto da obra, Lúcio Gomes Machado, argumentou que quando obteve o terreno já não havia o córrego no local e que o aterramento seria uma movimentação de terra para formar um piscinão que contenha a água da chuva. A empresa está concluindo um parecer para apresentar à CETESB comprovando que agiu sem qualquer irregularidade. Se for constatado dano ambiental, o DAEE pode exigir que o problema seja desfeito ou uma compensação ambiental. Se as exigências não forem cumpridas, a empresa poderá ser multada e até mesmo interditada.
Tamanha paciência não se aplica à população local. Vilas inteiras foram demolidas em semanas. Há casos de resistência, como o de Dona Marta.

"Eu não consigo dormir de tão indignada que estou com toda essa situação", diz a geógrafa Odette Carvalho de Lima Seabra, autora de "Os Meandros dos Rios nos Meandros do Poder: O Processo de Valorização dos Rios e das Várzeas do Tietê e do Pinheiros". A professora doutora da USP clama por uma mobilização popular. "A administração pública não pode deixar o povo dentro da água, mas precisa fazer a remoção com respeito. Não pode somente tirá-los de lá e jogar em outro lugar."


Cloro para limpar o Tietê?


O reassentamento tem sido polêmico. Muitas famílias foram colocadas num Conjunto Habitacional em Itaquaquecetuba, a 11 quilômetros de onde moravam e em instalações péssimas - que será o tema da terceira reportagem desta série.
"Falta organização e planejamento", diz Bruno Miragaia, Defensor Público para assuntos de Habitação e Urbanismo na Zona Leste de São Paulo. "A empresa contratada para fazer o cadastramento não está sabendo lidar com os moradores. É tudo feito de forma desrespeitosa. Veja: estamos lidando com gente que perdeu tudo. É preciso respeito. A pessoa com água nos pés acaba abrindo mão de muitos direitos no desespero. Eles perdem a referência."
Uma tenda da Sabesp (Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo) foi erguida num descampado ao lado da região mais afetada pelas chuvas na Vila Aimoré, um ponto estratégico entre o Jardim Pantanal e o Jardim Romano, os bairros mais castigados. Funcionários da Sabesp distribuem cloro à população para evitar a proliferação de doenças causadas pela água contaminada - um garoto de seis anos morreu no final de dezembro de leptospirose. "Eles acham o quê? Que vão limpar o Tietê com todo esse cloro? O problema é outro. Tem que combater o que causa a enchente, e não se preocupar apenas com o que vem depois dela", diz Ronaldo, o líder comunitário.


Barreiras da discórdia


São dois os pontos principais de contestação: a necessidade urgente de desassoreamento do rio Tietê naquela área e a fiscalização sobre a abertura da barragem da Penha. Há a suspeita de que ela tenha sido fechada durante a chuva do dia 8 de dezembro, para que a marginal Tietê não fosse inundada. A água represada teria inundado as comunidades vizinhas ao rio naquele ponto.
"Há fortes indícios de que essa questão do fechamento da barragem tenha resultado nas enchentes. Solicitamos ao DAE (Departamento de Águas e Energia) um relatório e um técnico dará o parecer", diz o defensor público Bruno Miragaia. "Mas já sabemos que o rio está muito assoreado. Entramos com uma ação na Justiça, pedindo medidas para amenizar o problema, e o desassoreamento do rio é uma delas. Choveu demais e enchentes acontecem, mas aquele é o único lugar em que a água só sobe, não desce."
Segundo a Secretaria de Saneamento e Energia do Estado, responsável pela barragem da Penha, mesmo com a abertura das comportas a água não baixou por se tratar de uma área de várzea, "espaço natural de amortecimento das cheias".
Miron Rodrigues da Cunha, do Conselho Gestor da APA da Várzea do Rio Tietê, diz que "a função da barragem é exatamente regular as enchentes, mas o problema é que toda aquela área ali foi assoreada com detritos de lixo, então a água acaba passando por cima da barragem quando o volume é muito grande." Ele concorda com Miragaia e vai além: "Tem que fazer o desassoreamento, mas só isso não basta. Um rio só se corrige se você parar de agredi-lo."
A geógrafa Odette lembra que a poluição do Tietê começou nos anos 30, com o estabelecimento da Nitroquímica na região de São Miguel. O crescimento da cidade em torno de seus dois principais rios - o Tietê e o Pinheiros - causou a impermeabilização das margens. Quando chove em excesso, a água não tem para onde ir. "Vemos poucos investimentos nessa área, porque esse tipo de obra não é como uma estrada, que todos vêem", diz Miron Rodrigues da Cunha. "No Japão, foram construídos piscinões subterrâneos que eliminaram os casos de enchente. Mas qual político no Brasil vai investir numa obra que ninguém vai ver?"
Segundo o secretário do Meio Ambiente, Xico Graziano, o projeto para aquela área é outro. "O nosso foco agora é combater a impermeabilização. Várzea é como uma grande piscina natural e queremos garantir que esse piscinão exista", explicou.

Leia também a reportagem "Avila que não existe mais" Por Juliano Costa, Redação Yahoo! Brasil clicando aqui

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

SOBRE AS ENCHENTES NA Z/L



Texto por Leandro Hoehne -
Ator/ arte educador (grupo D
o Balaio -teatro/ circo)
www.circodobalaio.wordpress.com


Pedimos atenção, nada mais.

A palavra que a TV não quer que ouçamos, a imagem que o jornal não veicula, a realidade que ninguém quer, mas está aí... viemos para mostrar.O videomaker e fotógrafo Jonatas Marques, o Movimento Livre Leste, Emperiféricos, Trupe Arruacirco, Grupo do Balaio e Cia Extremos Atos se uniram para, em pleno feriado de aniversário da cidade de São Paulo, enfiar o pé na lama junto com a população do Jd Romano que sofre com as chuvas.O resultado é a produção de um vídeo-denúncia e imagens fotografadas de ruas situadas em pontos do bairro que, importante observar, nunca haviam sido alagados, segundo relato de moradores instalados há mais de três décadas no local.Sim, existem outras comunidades sofrendo com as recentes chuvas, mas assista o vídeo e entenda o jogo político por trás desta situação.Os movimentos artísticos da periferia leste têm se unido para mudar essa realidade. Caso queira ou possa contribuir conosco, entre em contato no e-mail circodobalaio@yahoo.com.br

Estamos angariando pessoas que possam ter contato com mídias independentes e alternativas e contatos de contatos de contatos de contatos.... A idéia é disseminar o vídeo na internet e conseguir reunir pessoas para futuras intervenções. Radicais intervenções.Seguem os links das fotos e do vídeo, respectivamente:




quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

OUVI O CLAMOR DESTE POVO

CAMINHADA ECUMÊNICA POR JUSTIÇA AOS ALAGADOS DA VÁRZEA DO TIETÊ
Dia 16 de JANEIRO de 2010 - Sábado às 10:00 h


Percurso: vestidos com camiseta branca sairemos da Igreja Nossa Senhora Aparecida do Jd. Romano e seguiremos pelo Viaduto Carlito Maia – Av. Marechal. Tito – Estação de Trem do Itaim Paulista – Jardim Aymoré com retorno pela várzea do Rio Tietê.



"Por que é que meu filho morreu?"

Pergunta o Sr. Cássio Rodrigo Sales de Lima morador da Vila Itaim que perdeu seu filho de apenas seis anos de idade no dia 20 de dezembro, após a criança ter tido contato com as águas das enchentes, manifestou sintomas da leptospirose e faleceu dois dias depois sob cuidados médicos, os quais não atestaram a causa de sua morte. Indignado, seu pai quer saber das autoridades públicas o porque e de que seu filho, que sempre teve boa saúde, adoeceu e morreu num prazo de apenas dois dias.
Quais as providências para drenar a várzea e tirar a água que, inexplicavelmente, está há um mês nas casas das pessoas?

A situação a que têm sido expostos os moradores alagados da várzea do Rio Tietê tem origem numa TRAGÉDIA PREVISTA, o poder público deixou de limpar o Rio Tietê por anos e, para piorar, na chuva da madrugada do dia 08/12/2009 fecharam as comportas da barragem da Penha numa clara opção de inundar as casas dos pobres para preservar a casa dos ricos. O mais agravante é a apatia, o imobilismo e o descaso para com as várias mortes já ocorridas, as doenças e a total negação de direitos constitucionais dos moradores da várzea (proteção, saúde, moradia, direito a vida, entre outros), basta olhar para a falta de recursos humanos (principalmente na saúde) e para a falta de maquinários adequados para solucionar os problemas da enchente. Situação inaceitável ante a proposta orçamentária aprovada na câmara municipal para o ano de 2010 que reduz investimentos em obras nas áreas de risco de enchente e aumenta valor dos gastos com publicidade do prefeito Kassab.

Política habitacional do governo para dar início à construção do Parque Linear Várzea do Tietê: manter os alagados na lama podre até que se rendam à Bolsa-aluguel ou fiquem por anos em alojamentos coletivos.

Esta política de morte e de negação de direitos faz parte do projeto do governo do estado que prevê a remoção de quase 5 mil famílias da várzea do Rio Tietê para construir o que tem apresentado como o maior parque linear do mundo que será alicerçado com a morte do nosso povo para beneficiar os ricos. Desta maneira, sem apresentar nenhuma política habitacional às famílias marcadas para remoção/desapropriação, provocar uma enchente é uma maneira mais fácil e barata para expulsar os pobres das margens do Rio, oferecendo-lhes e m troca uma BOLSA ALUGUEL, um ALOJAMENTO COLETIVO por tempo indeterminado ou expondo-os a uma humilhante disputa por pouquíssimos apartamentos do CDHU construídos nas periferias das cidades vizinhas.

Se estas inundações e mortes atingissem a pessoas ricas, que providências o prefeito Kassab e o governador José Serra já teriam tomado? Acaso ignorariam as mortes e ofereceriam uma BOLSA ALUGUEL aos sobreviventes?

Se até aqui nos ajudou o Senhor Deus (I Samuel 7:12), nós queremos ir adiante com nosso clamor!

NA CAMINHADA POR QUALIDADE NO ATENDIMENTO À SAÚDE PÚBLICA, POR UMA IMEDIATA E JUSTA POLÍTICA HABITACIONAL – UMA CASA POR OUTRA CASA, PELA VIDA e NÃO À BOLSA ALUGUEL !

Organização: Rede de Proteção à Criança e ao Adolescente da Vila Itaim e do Jardim. Romano

Apóiam esta luta: ACALeO – Ação Cultural Afro Lesta Organizada; Daniel Lanches da Vila Itaim; EDUCAFRO - Núcleo Bom Pastor da Vila Itaim; Ialorixá Selma de Oxossi e Babalorixá Márcio de Ogum da Vila Jacuí; Igreja Batista do Jd. Maia; Igreja Metodista Wesleyana da Vila Itaim; Movimento Cultural da Penha; Movimento em Marcha do Jardim Romano; Movimento Popular pelos direitos dos moradores das margens do Tietê e por justiça no processo de desapropriação; MULP – Movimento de Urbanização e Legalização do Pantanal; Pastorais Sociais das Igrejas Nossa Senhora Aparecida do Jd. Romano, São Joaquim do Jd. Noêmia, São José Operário da Vila Itaim, São Paulo Apóstolo do Jd. Aymoré, São Pedro do Jd. Aymoré e São Francisco de Assis de Ermelino Matarazzo; Sociedade Amigos do Jd. Noêmia; Sociedade Amigos do Jd. Maia; Sociedade Amigos da Vila Mara; Sociedade Amigos da Vila Nova Itaim e Associação dos Moradores de Vila Aymoré.


Oswaldo ACALeO

ATAQUE À LEI DE FOMENTO

Convocamos todos os artistas de teatro e de dança e interessados solidários à cultura para comparecer ao ato em defesa das leis de fomento ao teatro e dança. Na ocasião, o Secretário Municipal de Negócios Jurídicos de São Paulo, Cláudio Lembo, irá receber o movimento teatral e vereadores para discutir as questões jurídicas referentes à Lei de Fomento.
Neste momento a lei do Fomento ao Teatro corre sério risco. O próximo edital poderá ser enquadrado no decreto do prefeito Kassab, que criou modelo de convênios para o Município de São Paulo que muda radicalmente o espírito democrático da lei e abre caminho para privatização da cultura.
Queremos o cumprimento da Lei do Fomento ao Teatro para a Cidade de São Paulo tal como foi elaborada, a partir de uma amplo debate que envolveu artistas, parlamentares e a sociedade paulistana.

É IMPORTANTÍSSIMA A PRESENÇA DE TODOS
REPASSEM E MULTIPLIQUEM DENTRO DOS GRUPOS.
PEDIMOS QUE TODOS OS GRUPOS TRAGAM MATERIAIS (baneres, cartazes, figurinos, cenas) DE SEUS TRABALHOS, PARA EXIBIRMOS PUBLICAMENTE.

Concentração: Teatro Municipal
Horário: segunda-feira, 18/01/2010, às 9:30h
Em seguida caminharemos até a sede da Prefeitura, próximo à Praça do Patriarca

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

A LÓGICA CAPITALISTA

CLIQUE NA IMAGEM E LEIA ESSA CHARGE.

FAXINA ÉTINICA - NA CONTRAMÁO DOS DIREITOS HUMANOS


O QUE É A “FAXINA ÉTINICA”?

Faxina Étnica é um processo de remoção de populações pobres do seu local de origem para atender interesses particulares angariados pela classe social hegemônica, muitas vezes camuflados por trás de políticas de urbanização ou de segurança.Na verdade, essas remoções servem, entre outras coisas, para valorização imobiliária de empreendimentos voltados para classes sociais abastadas que não querem que aqueles considerados “indesejáveis” circundem suas propriedades.Esse processo recebeu o nome de “higienização”, ou seja, um processo de “limpeza” local (vide o bairro da capital paulistana chamado Higienópolis: traduz-se literalmente em Higien (limpeza) Polis (cidade). Esse nome não foi dado ao acaso. Justificasse pelo fato da remoção da população que antes habitava esse para a criação de um “feudo” privado da elite econômica paulistana. O bairro paulistano da Liberdade, habitado no início do século XX por uma população majoritariamente negra, com a existência inclusive, de alguns quilombos, sofreu um violento despejo e extermínio de sua população para que os imigrantes nipônicos pudessem ter um bairro- reduto para sua colônia. A higienização não é alheia às intenções do Estado. Pelo contrário, ela só é possível pela ação efetiva do mesmo (ou no muito pela sua omissão ao permitir o uso generalizado da violência privada). Pode ser feito de três formas:1. Por extermínio direto (execução sumária por agentes do governo - policia, exército) ou indireto (precarização do atendimento médico) 2. Remoção arbitrária (despejo)3. Política de encarceramentoNo entanto, hoje existem outros meios de mover contingentes populacionais considerados indesejáveis. No bairro do Morumbi algumas empreiteiras que realizam obras no local contratam assistentes sociais para negociar a saída da população e assim, valorizar o seu empreendimento imobiliário. No rio de janeiro esse processo de higienização iniciou-se no inicio do século passado com o despejo de uma gigantesca leva da população pobre que ocupava áreas centrais nos inúmeros cortiços existentes. Graças a uma “política de planejamento urbano” patrocinada pelo Estado, esses cortiços foram demolidos e sua população foi obrigada a se dirigir para áreas degradadas, entregues a própria sorte, iniciando, a partir daí, a ocupação dos morros. O planejamento urbano alegado pelo Estado foi, basicamente, em prol da criação de bairros e obras que satisfizessem a ordem social e moral da elite econômica local. A higienização também pode ser desencadeada quando da iminência de eventos de cunho internacional em terra brasileiras. Nesses momentos, há um aumento significativo do deslocamento e aumento de vigilância sobre a população marginalizada. A conferência sobre meio ambiente ocorrida no Rio de Janeiro em 1992 (ECO 92) e o Pan-americano olímpico no mesmo Estado no ano de 2007, são alguns exemplos do aumento do aparato de coerção e da violência por parte do Estado sobre a população marginalizada. A presença ostensiva das forças militares nas ruas e nos morros durante esses dois eventos caracterizam essa afirmação. A visita de autoridades internacionais idem desencadeia a hostilização estatal. Em 2007, com a visita a São Paulo do então presidente dos Estados Unidos George W. Bush, a população de indigentes foi retirada das ruas à força pela polícia do Estado no trajeto feito pela comitiva presidencial. O mesmo ocorreu na visita do Papa Bento XVI no mesmo ano. O filme “tropa de elite”, embora seja uma obra de ficção, é perfeitamente embasada em procedimentos reais, principalmente no que tange o mote essencial do filme: a visita do Papa faz com que o BOPE, (Batalhão de Operações Especiais da Polícia Militar do Rio) entre em ação subindo morros e exterminando seus moradores, grande parcela composta por pessoas negras e pobres. Nesse fogo cruzado nem sempre são traficantes são os únicos mortos. Porém, a relevância que se dá aos mortos civis em meio a essa guerra civil não anunciada é pequena, sobretudo por parte da mídia. As vítimas são contabilizadas como dados estatístico sem nome, rosto ou história. Mesmo que os mortos sejam infratores, os mecanismos democráticos não legitimam a execução sumária feita por esse grupo de extermínio a serviço do Estado. Dado o retrospecto histórico, o processo de agravamento da repressão tende a crescer daqui a alguns anos devido dois eventos de grande magnitude internacional: a copa do mundo de futebol em 2014 e as olimpíadas em 2016. Concluí-se, então, que o Estado tem papel relevante nesse processo de faxina étnica quando opta por agir de maneira drástica e violenta para combater a criminalidade em locais não assistidos, portanto, fora das garantias de igualdade inerentes ao ideal democrático, atuando muito mais nos efeitos ocasionados pela desigualdades sociais do que nas suas causas. Segundo o autor Thomas Hobbes em sua obra Leviatã (1651) a emergência do Estado nasce da necessidade de apaziguar os perigos que os conflitos entre os indivíduos causam as organizações humanas. Isso só é possível com o apoderamento de uma instituição absoluta e soberana, o Leviatã ( da mitologia grega, trata-se de um gigante colossal. O autor usou essa alegoria baseado nessa figura mitológica para ilustrar o poder que o estado deve ter diante dos seus “súditos”). Este gigante formado pela organização e legitimação de um grupo de indivíduos,tutelaria a sociedade exercendo, sempre que julgasse conveniente, o monopólio sobre a força. A prerrogativa hobbesiana, a medida em que tem por objetivo inibir o perigo “horizontal” ou seja, das pessoas matando umas a outras entregues ao seu estado de natureza, dá margem para o perigo “vertical”, de cima pra baixo, caracterizado pela morte dos indivíduos pelas “mãos” do Estado. O verniz ideológico contribui substancialmente para que essa realidade seja tratada com extremo eufemismo quando não invisibilizada e ignorada.



O CENÁRIO NEOLIBERAL COMO PANO DE FUNDO DA FAXINA ÉTNICA



Em 1988 um relatório internacional promovido por entidades como o Banco Mundial identificou dois grupos como perigosos ao bem-estar da sociedade dada a grande velocidade com a que se agigantavam: a) Os menores de ruasb) As pessoas que habitavam os bolsões de miséria que cresceram significativamente com a ascensão das políticas neoliberais.A tônica era dar cabo desses grupos, seja por meio de coerção e extermínio segundo um ponto de vista político direitista, seja pelo controle e gerenciamento advindo de um visão política de centro- direita. O aumento exponencial das populações miseráveis e dos menores de rua gerava (e ainda gera) uma tensão social que faz da desconfiança e do medo uma constante, principalmente em megalópoles como São Paulo. Fato é que o modelo neoliberal contribuir inegavelmente para o aprofundamento das disparidades sócio-economicas das sociedades capitalistas. Esse modelo, calcado no agravamento da competitividade por recursos escassos, gera um agudo processo de exclusão. Estima-se que este só é capaz de incorporar no seu dorso pouco mais de um terço da população do mundo. Isso faz com que uma gigantesca massa, excluída das benesses que o capitalismo produz, tenha que ser constantemente gerenciada, acarretando na tensão vinda de uma sociedade cada vez mais polarizada. A ideologia dominante cumpre um importante papel na amotização desse impasse ( por exemplo, disseminando o discurso que a ascensão social depende única e exclusivamente do esforço individual, descaracterizando a natureza excludente do sistema de acumulação incapaz de absorver a maior parte da sociedade). A coerção legitimada pelo monopólio absoluto da violência, prerrogativa constitucional dada ao Estado, é outra ferramenta indispensável para o controle da massa excluída.Devido o processo histórico brasileiro, marcado por cerca de trezentos anos de escravidão, a massa de excluídos é caracterizada por uma notória população negra e mestiça que foi, mesmo após a abolição, colocada fora dos planos de desenvolvimento social projetados pelo Estado. Cai sobre esta população o maior controle dado pelo extermínio direto (segundo dados do IPEA 77,4 jovens negros a cada 100 mil são assassinados violentamente pelo Estado a cada ano) e indireto (sucateamento evidente dos serviços de atendimento básico de saúde, falta de políticas de saúde que contemplem as peculiaridades da população negra como no caso de doenças como a anemia falciforme), pelo encarceramento (parte significativa da população carcerária é negra) e pelo monitoramento policial. O racismo institucionalizado pelo Estado e corroborado por instituições políticas internacionais não é só uma questão moral. É fundamentalmente uma questão de projeto político a serviço do ideal neoliberal político-economico.

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009